Semana Santa


Algodoal me faz bem.

Aprendi lá que não vale a pena esculpir com lágrimas as rugas dos teus olhos, ou pintar olheiras no teu rosto com a marca do eternamente. Isso não é capaz de botar de volta a pasta de dente ao tubo. E ninguém vem até você pela quantidade de líquido derramado, pelo drama anunciado, só a sua mãe, nos ternos anos em que ela ainda acredita no teu choro de criança.

Aprendi que as pessoas podem te ferir. Principalmente aquelas que te estão mais próximas. Nem se compara o assombroso corte de espada que você leva de um inimigo com o singelo arranhão de um espinho de rosas, quando é dado por alguém que você confia. Mas nem isso faz valer a pena você cortar os pulsos, pular da ponte do Outeiro, ou virar torcedor do Paysandu. Vale antes olhar o nascer da lua, e o sol do dia seguinte brilhando nas areias e cozinhando corpos morenos, pois isso vai fazer sorrir os teus olhos.

Aprendi que o bem e o mal são relativos. Entre o certo e o errado, entre o preto e o branco, como diria meu bom amigo Moa, há milhões de tonalidades. E que é preciso dar às pessoas o tempo delas próprias, o seu próprio viver, aprender e descobrir. E você nunca vai ser dono de ninguém, nem você te pertence, o mundo é quem é o teu dono. Aprendi que a única coisa eterna é a mudança.

Acima de tudo, aprendi que você deve cuidar de si mesmo. Você é o seu único passaporte para a felicidade, se nem você existir, nada mais é possível. Sem que a sua cabeça esteja no seu comando, como querer comandar o destino de qualquer pessoa? Não te machuca demais, busca conhecer teus limites. Cuida da saúde, prolonga a existência.

Aprendi que é preciso amar, como diria o poeta Renato Russo, as pessoas como se não houvesse amanhã. Não que a partir de agora esteja decretado que é proibido fazer planos ou construir conscientemente o futuro. Mas é ter sempre a certeza que quando você dá amor sem esperar nada em troca você sempre recebe muito mais em troca. E que se amanhã você não puder receber o que deu hoje, já foi dado, fazer o quê, já não é mais seu. Mesmo quem te trai, quem te apunhala pelas costas, tem no seu remorso ou na sua culpa, muito mais a te dar do que na hora que te fez mal.

Entre de cabeça. Mesmo com todas as mágoas que a vida me trouxe, tenho a certeza que não vale a pena se não for assim, se você não se der por inteiro, se não buscar a profundidade, se não for puro e intenso. Descobri que a juventude e a longevidade são medidas mais pela intensidade do que pela idade. Se você não sente, se o teu coração não queima, se o teu pulso já não arde, se você é incapaz de mergulhar de corpo inteiro, pode marcar a data do enterro. Só não seja bonzinho demais, porque os excessivamente generosos sempre se ferram. Lembre-se que os que batem sempre esquecem, tornam menor o seu gesto, mas a dor de quem apanha faz tatuagens sinistras no teu coração.

Aprendi que a vida não começa aos 15, nem aos 20, muito menos aos 40 ou aos 50 – como dizem. Mas começa todos os dias e você tem sempre o resto dela pela frente. A vida é como uma grande correnteza, uma onda, um tsunami. Cabe a você ser o melhor de todos os surfistas. Navegue no mar que você nada, pilote a sua vida adiante

Algodoal faz muito bem.

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