Mais palpites para candidatos

Vou dar um "crlt C crlt V" num dos bons textos do Francisco Ferraz sobre eleições. É meio longo e tá meio em cima da hora, mas a vale a pena ler.


O pouso no escuro: ignorar o que o povo pensa

Melhor do que decidir o que dizer é saber o que o eleitor quer ouvir

Em torno de 90% dos casos, as campanhas estão muito mais preocupadas em decidir o que vão dizer aos eleitores (e como vão dizer), do que em saber o que eles estão interessados em ouvir. O mesmo vale para a eleição. Esta, quando despojada de seus elementos acessórios e circunstanciais, se resume a:

O candidato precisa comunicar sua mensagem aos eleitores alvo

Transmitir a mensagem certa aos eleitores potenciais

Não há muito mais que você possa fazer na campanha eleitoral. O que lhe compete fazer é persuadir o eleitor que a sua candidatura, os seus projetos, e a sua liderança, é o que ele está precisando naquela eleição. Você só conseguirá o voto dele convencendo-o, persuadindo-o disso. Não há outra forma.

Logo, transmitir a mensagem certa significa comunicar aquela que vai ao encontro do que o eleitor mais deseja e espera do resultado daquela eleição. Em outras palavras, você, ao assim agir, estará falando aquilo que eles entendem e que estão interessados em ouvir.

Resta dirigir esta mensagem aos eleitores alvo, isto é, aqueles que já decidiram votar em você (os certos), e os que poderão vir a votar em você (os potenciais), e que formam um bloco de eleitores que é quantitativamente suficiente para elegê-lo. Há, contudo, umas regras que precisam ser obedecidas, para que este objetivo se realize.

Na realidade, todas podem ser resumidas numa só: Você precisa saber antes, com o máximo de detalhe e precisão, o que o eleitor espera, deseja, prioriza, para aquela eleição.

Sem essa informação, recolhida com o máximo de precisão, você se encontra naquela situação referida no título desta coluna: tentando aterrissar seu avião à noite, numa pista sem iluminação. Em outras palavras, você não tem como saber se estará aterrissando na pista ou fora dela!

Para que o objetivo de "pousar bem o avião" seja atendido, é necessário atender alguns pré-requisitos:

  • Adquirir conhecimentos confiáveis sobre o eleitor, como se informa, suas prioridades, circunstâncias de vida e tendências políticas;
  • Segmentar o eleitorado em blocos homogêneos de eleitores em função de variáveis politicamente relevantes, com suas respectivas e diferenciadas prioridades
  • Definir as formas de comunicação: de alta e de baixa intensidade, em função do tamanho do eleitorado, do tempo disponível e do perfil dos segmentos
  • Formatar a mensagem de forma a ser entendida, retida na memória, identificada com a candidatura, e aprovada pelo eleitor, na comparação com as outras;
  • Ajustar a imagem do candidato à mensagem e à expectativa do eleitor.

O eleitor real e o abstrato: Para quem fazer campanha?


A comunicação política, no período eleitoral, deve levar em conta a especial situação do eleitor real

Estes procedimentos prévios, e outros mais, são necessários porque comunicação política, no período eleitoral, deve levar em conta a especial situação do eleitor real. Este eleitor, ao contrário dos modelos utópicos de cidadania, é um indivíduo com baixo envolvimento político, baixo conhecimento, interesse, e informação.

Resumidamente, trata-se de um cidadão comum, mais interessado e envolvido com as circunstâncias que cercam a sua existência, do que com as grandes questões da política. Ele é:

  • Eleitor de baixa informação sobre política;

  • Eleitor com baixa disposição para buscar informação;

  • Eleitor com tempo reduzido para se informar sobre política;

  • Eleitor que, em conseqüência, tem pouco interesse nos assuntos políticos;

  • Eleitor que não costuma integrar associações políticas, como partidos;

  • Eleitor que, excluída sua participação na eleição, em razão do voto obrigatório, tem muito baixa participação política;

  • Eleitor que, como decorrência, carece de um quadro conceitual lógico e sistemático, com o qual interpretar os fatos políticos, e organizar as informações a que tem acesso;

  • Eleitor que, durante as campanhas eleitorais fica sujeito a um "bombardeio" de informações, sobre fatos, números, propostas, declarações, pesquisas, etc;

  • Eleitor sujeito a "pressões cruzadas" de pessoas que lhe são próximas, que competem pelo seu voto.

Este é o eleitor real, o que vota no dia das eleições. Mas não é para esse eleitor que a imensa maioria dos candidatos dirige a sua mensagem.
Não é para eles que a campanha costuma ser concebida e produzida. O ato caracterizado de "pousar no escuro" significa, que o candidato vocacionado para a derrota, ignora este eleitor, o subestima, pressupõe que sabe o que ele quer, o que ele sente, e dispensa esforços metódicos e sistemáticos para conhecê-lo.


Pousar no escuro significa que candidato decide ignorar os desejos do eleitor real

Nestes casos, é para um cidadão abstrato e basicamente indiferenciado, que a sua comunicação será produzida e realizada. O resultado não pode ser outro: o choque de percepções que derrota o candidato que assim procede.

É um diálogo de cegos: o eleitor busca infrutíferamente um candidato que autênticamente se identifique com seus sentimentos e necessidades, enquanto que o candidato dirige-se a um eleitor abstrato, genérico e indiferenciado.

Pousar no escuro é ignorar o eleitor real, aquele cujas características políticas listamos acima. Você não tem o poder de mudar aqueles parâmetros, logo, deve levá-los em conta para conseguir fazer com que sua mensagem chegue a ele e seja por ele compreendida.

Desnecessário dizer que isso torna a campanha muito mais difícil de equacionar politicamente. Demanda pesquisa, análise, debate, testes, muita criatividade, muita sensibilidade e, pré-requisito de tudo isso, muita humildade.

A maioria dos candidatos não se dispõe a esse trabalho. Prefere produzir uma mensagem genérica, para depois ajusta-la às diferentes situações que a campanha apresente.

Saiba, pois que, se você decidir trabalhar mais, e "fazer o pouso por instrumentos" muito provavelmente "aterrissará na pista", porque seus adversários provavelmente estarão praticando "o pouso no escuro".

Fonte: Política para políticos

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